O dia da Liberdade aconteceu,
mas a farsa continua a vencer à custa da ignorância e da miséria de um povo
que, efectivamente, ainda não despertou para a realidade.
Garcia dos Santos, um dos
capitães de Abril, talvez tenha razão quando afirmou que serão precisas três
gerações para se chegar a uma classe política competente, numa espécie de
admirável mea culpa, tendo em conta a
sua passagem pela antiga Junta Autónoma das Estradas no consulado de João
Cravinho na pasta das Obras Públicas.
Lembram-se? Do maior escândalo
de corrupção e financiamento partidário que tudo o vento levou a partir do
momento em que caiu nas mãos da justiça?
Continuamos disponíveis para
elogiar o que de bom foi feito e abafar tudo de mal que continuamos a ter, como
se a criminosa corrupção fosse um mal menor, uma espécie de "lubrificante"
da economia, como alguns chegam a pensar em privado, numa espécie de adaptação sui generis da lei de Lavoisier às
ciências económicas.
Este deslumbramento mesquinho e provinciano, quiçá instrumental, diz muito do
que ainda somos, cidadãos de nome, sem cidadania activa, desinteressados da
impunidade em que vive uma certa casta que gravita à volta do Estado, sempre
novo, e dos partidos políticos, já velhos.
A indiferença não faz parte do
nosso ADN, muito pelo contrário, é resultado de uma certa manhosice crónica emprestada
pela mediocridade do salazarismo, uma cobardia endógena que almeja ser premiada
com uns trocos, uma subserviência sem limites até lá chegar, até chegar à meta
de cada um.
A realidade dos nossos dias não
pode ser assacada apenas à ditadura, nem tão-pouco ao criminoso PREC que alguns
ainda tentam salvar a todo o custo.
Aníbal Cavaco Silva tem o mérito
de poder afirmar que deixou o seu cunho ao fim de quase 20 no poder. Ele
percebeu o tipo de português que ainda somos e não hesitou em explorá-lo,
durante o longo período de maná vindo de Bruxelas. Será por acaso que alguns
dos maiores escândalos económicos e financeiros envolveram alguns dos seus mais
próximos colaboradores?
Neste pântano que alastra,
devorando a dignidade, o desassombro e o inconformismo, deixando o Estado refém
de interesses e clientelas diversas, a esquerda ainda não soube fazer a
diferença, sempre ávida de chegar ao poder, pelo que também pode reclamar o seu
quinhão de glória na grande caminhada de saque, sem olhar a meios nem à
companhia de corruptos, assassinos e sanguinários, alguns dos quais já
liquidados pelos seus compatriotas, permitindo que o país chegasse à bancarrota
em 2011.
No dia 9 de Outubro passado, no Diário de Notícias, Mário Soares escreveu: «Os ministros começam a estar impacientes. Porque
se ficarem no País e houver outro Governo, vai saber-se tudo o que se ignora,
que é muitíssimo».
Nem um fremir...
Nada!
É a farsa dentro da farsa, por
acção ou omissão, num país em que o chico-esperto, finalmente, assaltou o
poder, em que o cidadão continua a ser instigado em reclamar mais e mais sem
cuidar de saber dos recursos para o pagar, em que o poder político continua
subjugado ao poder económico-financeiro, em que os mecanismos de regulação e
escrutínio jogam o jogo, habilmente, para garantir o conduto.
Portugal é assim: 40 anos depois
do 25 de Abril.



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