segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

DO ALTO DA IMPUNIDADE


A política de Estado portuguesa em relação aos assuntos e negócios angolanos está acima da Lei?

Esta é a grande questão depois do momento actual das relações luso-angolanas estar a ser marcado pela acção da Justiça angolana em relação a Isabel dos Santos.

Enquanto começa a ser evidente que os angolanos estão determinados em tratar dos seus, em Portugal continua o silêncio sobre os cúmplices de Isabel dos Santos, desde empresários a advogados famosos.

Até quando?

O presidente da República ou o primeiro-ministro bem podem determinar, nas costas do povo, que as relações entre Portugal e Angola estão acima de tudo e de todos, mas tal só é possível se o escrutínio não for levado a cabo por quem tem o direito e o dever de o fazer.

Não bastam palavras vãs e as tardias promessas de escrutínio do Banco de Portugal e da CMVM.

De momento, o silêncio do Ministério Público até pode ser compreensível, pois as investigações não podem andar na praça pública, mas o precedente criado com o caso de Manuel Vicente também não deixa ninguém descansado quanto à determinação e independência do titular da acção penal.

E o episódio do afastamento de Joana Marques Vidal é um exemplo que também não abona nada a República.

O silêncio dos partidos políticos portugueses, da esquerda à direita, é um triste pronúncio de mais uma tentativa de varrer o lixo para debaixo do tapete.

Por sua vez, as reacções da filha de José Eduardo dos Santos, bem como os caldos de galinha prontamente afirmados por Manuel Vicente, apenas dão um tom mais colorido ao embaraço pesado e crescente sobre a abertura da porta aos dinheiros angolanos.

Aliás, as ameaças públicas de personalidades acossadas é uma constante de países de Terceiro Mundo, como se fosse possível do alto da impunidade condicionar a descoberta da verdade.

E não se julgue que é apenas Isabel dos Santos a fazê-lo.

Por estas bandas não faltam outros exemplos, desde Vítor Constâncio a José Sócrates, só para recordar dois mais recentes.

No início de 2020, as instituições democráticas voltam a dar provas de enorme fraqueza, colocando-se numa posição de dependência da acção e determinação de uma cidadania forte para um esclarecimento cabal da questão de fundo: qual é a origem dos capitais provenientes de Angola?

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

2020: LOVE AFFAIR


O abanão que há muito tempo faltava à Direita, livre do irrevogável e dos fantasmas do passado, será um dos acontecimentos marcantes de 2020.

Os resultados das eleições internas no PSD e CDS/PP serão determinantes para definir o futuro do país.

Sejam quais forem os escolhidos para comandar os dois partidos, tradicionalmente identificados com a Direita portuguesa, nada ficará igual, pois a renovação é sempre uma consequência benigna a cada escolha da liderança.

E quanto mais renovação maior será a revitalização e a esperança.

Independentemente dos resultados da governação do PS e demais esquerdas, a ansiedade e o desejo de acautelar a mudança crescem ao ritmo do surgimento de nuvens no horizonte.

Os agentes dessa mudança geram sempre mais expectativa, criando uma dinâmica que é rejuvenescedora e pode arrasar o actual panorama partidário e político.

Mas falta construir uma alternativa credível e sólida!

Certamente, o caminho vai ser longo e penoso para os novos líderes da Direita, tal é o assalto ao Estado e a eficácia da máquina de propaganda que tem vindo a ser consolidada desde 2005.

Tanto mais que ainda há quem não reconheça os erros do passado - aliás abraçados por esta espécie de Esquerda no poder que mete os Direitos Humanos no bolso quando convém -, desde a abertura aos corruptos internacionais e ao capital dos Estados ditatoriais à desvalorização infantil da questão ambiental.

Resta saber se nesta nova equação à Direita, que tem de ser traduzida numa onda mobilizadora, também cabe a consolidação de um presidente da República que mais não tem sido do que uma espécie de Rainha de Inglaterra frenética, repetitiva e inconsequente.

Dar cobertura ao estilo populista, ao branqueamento brutal da realidade e à diminuição da capacidade de intervenção de Belém é meio caminho para hipotecar a energia gerada por uma disputa eleitoral que se pretende transparente e clarificadora.

É preciso coragem para abraçar uma aventura desta monta, em tempos de instrução de Tancos, execução do Brexit e eleição presidencial nos Estados Unidos da América, mas é nos momentos cruciais que se descobrem os verdadeiros líderes.

A definição estratégica de PSD e CDS/PP é o primeiro passo para criar as condições de um novo Love Affair entre a Direita e o povo português.


segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

REGRESSO À PROPAGANDA DO FASCISMO


A propaganda em curso está aí para durar e lavar.

Tal e qual como noutros tempos da má memória, em que as boas contas, a solidez da moeda e as reservas de ouro eram glorificadas, hoje temos a gigantesca encenação do excedente orçamental.

Custa assistir a este truque bafiento, porque todos sabemos que foi alcançado à custa do sofrimento dos portugueses, sem qualquer respeito pelos mais elementares critérios de prioridade social.

Não basta alcançar o desejável, quando valeu tudo para o alcançar.

Os portugueses que esperam pela pensão, pelos cuidados médicos e pela dignidade a que tem direito só podem ficar revoltados, cada vez mais revoltados, por este (falso) discurso político.

Em boa verdade, a responsabilidade não é só de António Costa e Mário Centeno.

Não, os portugueses já estão habituados ao cinismo político de ambos, bem como ao branqueamento brutal da realidade de quem tem a responsabilidade de estar acima dos interesses partidários.

A responsabilidade da presente situação é de todos nós, sobretudo daqueles que se calam perante a ignomínia política, permitindo que a farsa monstruosa siga impunemente o seu curso.

Com o exemplo dado por quem tem o poder de mudar o actual pântano, que já vem de longe, a verdade é que a sociedade portuguesa está a anestesiada e conformada.

E não dá sinais de qualquer capacidade de reacção.

Nem mesmo quando alguém tem a coragem inconveniente de denunciar a podridão que nos invade, diariamente, ano após ano, e que já tomou conta de um país cada vez mais adiado.

Mas que fazer?

Ser activamente solidário, contrariando o isolamento e o silenciamento de todos aqueles que nunca desistem da verdade.

Feliz Natal!

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

MARCELO E O BRANQUEAMENTO BRUTAL


O branqueamento brutal da realidade continua a sua grande marcha presidencial.

Insultuoso já era, agora começa a raiar o doloso, tendo em conta os últimos desenvolvimentos em tempos de apresentação e discussão do Orçamento do Estado para 2020.

Na Saúde, um truque de merceeiro mediatizado gerou uma defesa inexplicável do governo - cada vez mais e só de António Costa.

Nas questões climáticas, depois do falhanço da última cimeira de Madrid (COP25), o machado da reprovação caiu sobre algumas potências mundiais, ocultando as responsabilidades da China como um dos grandes poluidores a nível planetário.

No Orçamento de Estado, a antecipação de um hipotético abatimento da dívida já fez as delícias do optimismo delirante.

As preocupantes divisões entre o primeiro-ministro e o ministro das Finanças, para surpresa e gargalhada por cá e no seio do Eurogrupo, são apresentadas como resultado de mais uma táctica de alto nível.

Por sua vez, a prescrição e o respectivo perdão das dívidas e coimas aplicadas aos partidos políticos não mereceu uma pronta palavra presidencial.

A propósito da vitória de Boris Johnson, e um pouco ao jeito do "tour da cleptocracia" de Londres, que passa pelas casas dos magnatas da corrupção e do branqueamento de capitais (sem esquecer a City), só falta Belém inaugurar também, com pompa e circunstância, uma espécie de rota turística nacional para visitar todos os sítios emblemáticos em que somos superiores ao Burkina Faso.

Como se a chancela de Belém fosse suficiente para esconder a realidade que está à vista de quem quer ver...

Não há limites para esta miséria intelectual e indigência política?

A Iniciativa Liberal, através do seu presidente, João Cotrim Figueiredo, já deu o pontapé de partida, manifestando aberta e frontalmente que não vai apoiar uma eventual recandidatura presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa.

De facto, os portugueses começam a perceber que o "presidente dos afectos" não chega, pois o que também faz falta é um presidente exigente, acima dos interesses partidários e cumpridor da Constituição.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

POLÍTICOS (DEMASIADO) VELHOS


Confundir o mensageiro com a mensagem é um exercício moderno, execrável e perigoso.

Mais ainda mais alarmante é o fanatismo daqueles que confundem a realidade com o seu dogmatismo ideológico.

À direita, a irritação com Greta Thunberg leva o CDS/PP a aparecer aos olhos da opinião pública como um adversário das questões ambientais e climáticas.

É certo que a adolescente sueca não é mais nem menos do que um produto de marketing à escala global, um instrumento usado e abusado com um objectivo concreto, mas isso não quer dizer que a sua mensagem seja errada ou irrelevante.

Ao manter esta hostilidade politicamente delirante, a direita corre o risco de se afastar ainda mais dos novos eleitores, de uma juventude até agora perdida para causas estruturantes e mobilizadoras.

Outro exemplo deste fanatismo politico vem do PCP.

Jerónimo de Sousa vê em cada denúncia do caos na Saúde, em cada revelação de casos a roçar o criminoso, um ataque ao SNS.

Como se a existência do SNS, só por si mesmo, fosse o primeiro e último objectivo dos comunistas, independentemente da qualidade dos serviços que presta aos cidadãos.

A mediocridade política destas duas posições, à direita e à esquerda, revelam protagonistas ultrapassados, políticos (demasiadamente) velhos, sem nada para oferecer ou melhorar.

Certamente, não é por acaso que uns e outros se afundam nas urnas.

domingo, 1 de dezembro de 2019

LONGA VIDA DE MARCELO E COSTA


A comunicação social, finalmente, despertou em força para o caos na Saúde.

As notícias extraordinárias sobre o funcionamento do SNS passaram a ser uma constante da agenda mediática.

Até poderia ser útil saber qual a razão para tão tardio despertar, mas ainda mais interessante é olhar de frente para o futuro num horizonte de pelo menos cinco anos.

Se nada fizermos com que poderemos contar? 

Certamente, com mais um abismo. 

Em que Marcelo repete a rábula anual de encher o carrinho de compras para o "Banco Alimentar", enquanto Costa avança com um qualquer novo truque para fazer esquecer as anteriores promessas falhadas.

Um e outro, com a mesma bonomia, e desfaçatez política, diga-se em abono da verdade, lá seguirão o seu caminho de poder e para o poder, quais prestidigitadores, dispostos a manter a ilusão de que vai haver uma vida melhor.

O escrutínio e a exigência não podem passar de moda, pois o vazio da governação não pode ser escamoteado pela realização de feitos extraordinários que (n)os enchem de orgulho.

Os Bastonários dos Enfermeiros e dos Médicos, que contra a corrente têm mantido o foco na defesa dos cidadãos, são um exemplo a seguir. 

Para que outras Ordens, associações, sindicatos e profissionais tenham a mesma consciência e dignidade profissionais, apontando o tanto que ainda há de criminoso em áreas determinantes para cumprir a Democracia, como a Educação, a Justiça e a Segurança, entre outras.

A esta cidadania, ainda que insuficiente, têm faltado os partidos da oposição. 

PC e BE ziguezagueiam, Cristas foi traída pela incoerência e Rio continua sem entender a diferença entre o bota-abaixo e a denúncia firme do status quo miserável que condena o país à miséria.

Entretanto o bailete dos afectos e das luzes coloridas tudo abafa e distorce, no sentido de tudo continuar mais ou menos na mesma, com o sistema concentrado em diabolizar os pequenos partidos que almejaram alcançar um lugar no Parlamento.

É que, com mais ou menos excesso programático, ainda são vozes que escapam, por ora, ao mainstream.

A longa vida de Marcelo e Costa no poder é mais do mesmo.

É, como se pode constatar, tolerar que os cidadãos continuem a ser tratados como lixo.



segunda-feira, 25 de novembro de 2019

SAÚDE SEM PRESIDENTE


A Saúde não tem sido uma prioridade de António Costa.

E, mais grave, é um dos temas mais ignorados pelo presidente da República nas suas intervenções públicas.

A constatação é factual, obriga a reflectir!

E a colocar três questões: Será uma política de Estado? Por insensibilidade social? Ou por interesses difusos ou pessoais?

Sejam quais forem os motivos, que justificam as interrogações, é cada vez mais evidente o resultado: Marcelo Rebelo de Sousa tem contribuído e permitido o branqueamento sobre o que se está a passar na Saúde, designadamente no SNS.

O padrão da comunicação de Belém tem sido apenas marcado por uma forte presença no espectáculo das emoções e dos fait divers, como se o importante fora apenas o reforço da popularidade do presidente com vista ao segundo mandato.

Aliás, a avaliar pelas suas intervenções, Marcelo Rebelo de Sousa parece estar mais preocupado com a crise financeira na Comunicação Social do que com o desastre no SNS.

Como se a Democracia se cumprisse com a protecção de alguns e a desprotecção de todos os outros.

É chocante!

Esta inversão de valores é um perigo.

E não basta apelar para os cidadãos não terem medo de defender os seus direitos, quando é o próprio presidente que lhes falta escandalosamente ao encontro.

Aliás, é tão intolerável a violência doméstica como a falta de cuidados num qualquer estabelecimento de Saúde, público ou privado.

É certo que a palavra do presidente vale cada vez menos, mesmo nas campanhas que abraça, e muito bem.

O recente exemplo do incumprimento do programa da erradicação dos sem-abrigo, abafado antes das eleições de Outubro passado, teve de ser agora renovado, à pressa, à medida da saison.

Como se a Democracia se cumprisse com pactos e anúncios, sem escrutínio e responsabilização públicos.

Por isso já ninguém estranha - e deveria estranhar! - que o Ministério Público, sempre afoito a abrir inquéritos ao ritmo das notícias publicadas, tarde em agir pronta e publicamente relativamente aos mais diversos casos chocantes de incúria no SNS.

Resta o escrutínio dos profissionais, das Ordens e dos sindicatos do sector da Saúde, bem como da comunicação social, ou o que dela resta, livre da mão "caridosa" do Estado, fundamentais para pôr cobro a esta criminosa farsa à vista de todos.

Com o agudizar do caos no SNS, o coro pungente e miserável daqueles que, com a desfaçatez do costume, dizem não saber nada, já não é mais possível.

Em vez de declarações tímidas e avulsas - ao ritmo dos casos mediáticos -, o presidente da República tem de  intervir, publicamente, com máxima firmeza, exigindo ao governo, a este ou a qualquer outro, mais do que palavras de circunstância, o estrito cumprimento da Constituição.

Mas o texto fundamental também vale o que vale...

Por maior que seja a propaganda, ter Saúde em Portugal é cada vez mais um desafio perigoso para quem não tem dinheiro.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

SNS: CHEGOU O TEMPO DE ACORDAR


O SNS continua a morrer.

E com ele muitos e muitos portugueses mais pobres e desvalidos.

A catástrofe que está a ocorrer, diariamente, só tem sido possível com o beneplácito do XXII governo constitucional e de uma ministra que já morreu politicamente e ainda não deu conta.

Aliás, e deveras importante, algum dia ter-se-á de perceber o verdadeiro motivo do silêncio pesado do presidente da República sobre as sucessivas e escandalosas notícias diárias sobre o SNS.

O encerramento do Hospital Garcia de Orta (Urgência pediátrica), das 20h00 às 08H00, todos os dias, é apenas mais uma machadada nas necessidades dos cidadãos.

Os medicamentos faltam aos doentes, regular e impunemente, deixando aqueles que mais precisam à mercê de adiamentos ou alternativas que prejudicam a sua saúde.

Os médicos abriram os olhos e já começaram a declinar qualquer responsabilidade civil, tais são as condições de trabalho e falhas no sistema.

Faltava ainda, no âmbito da incompetência a roçar a incúria, a novidade de querer amarrar os jovens médicos ao SNS, numa decisão administrativa ao jeito da esquerda que apenas pode resultar num recrudescimento da conflitualidade, cujos prejuízos ainda podem agravar mais quem recorre ao SNS.

Não, não há tolerância para um caos permanente que parece ter emergido do nada após os últimos resultados eleitorais.

E não pode haver mais condescendência para quem julga ser possível disfarçar o que se passa com notícias positivas sobre o SNS, porque também as há, pois a gravidade do que está a ocorrer é por demais gritante e revoltante.

Se nos últimos quatro anos pouco se fez para resolver a situação, com a esquerda e a extrema esquerda a fazerem de conta que nada sabiam, uma coisa é certa: aqueles que têm de recorrer ao SNS certamente não esquecerão quem está a condenar o que resta de mais um serviço público.

E por mais e mais propaganda que possa ser lançada para tapar os olhos dos portugueses, a realidade dos números continua a ser dantesca: 47% dos portugueses não têm acesso aos serviços de saúde por falta de condições financeiras (OCDE) e 25% do orçamento da Saúde é gasto em desperdícios de toda a espécie (Lancet).

Os que não têm qualquer possibilidade de recorrer a um seguro de saúde privado ou não tenham a cunha suficiente para serem bem cuidados e respeitados no SNS, certamente não esquecerão a realidade de um Estado a roçar o criminoso.

Chegou o tempo, mais uma vez, de acordarmos, porventura de a Justiça também conseguir acordar.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

SINAIS, "TRAIDORES" E DEPOIS SOPHIA


Edward Snowden bem pode falar, bem pode denunciar a ficção tornada realidade, bem pode alertar para o abuso institucionalizado e legalizado.

Se as palavras de Snowden fazem pensar, também deviam indignar e mobilizar.

Mas a verdade de Snowden ainda não interessa a todos.

Por um lado, os governos são servidos e servem-se, para os mais variados interesses e objectivos, por quem na sombra fria passou a recolher a informação de enfiada.

Por outro, os cidadãos estão demasiado ocupados com mais uma novela, mais um gadget, mais uma experiência vivida e rapidamente esvaziada pela sua exibição na primeira oportunidade.

Por cá, no âmbito deste quadro, tão global quanto dantesco, já começaram a ressurgir mais sinais alarmantes de arrogância política e de abuso no início da Legislatura.

E para que ninguém vá ao engano nestes tempos novos, um dos ajudantes de Estado lá avisou a malta: qualquer coligação negativa é obra de "traidores".

E paira a ameaça no ar...

Nunca há limites para quem julga estar ungido pela divindade do poder...

Coitados!

Julgam poder tudo...

Mas não podem, como nos ensina a História.

Porque há sempre alguém que resiste, como Snowden.

E porque vale a pena caminhar com Sophia, cem anos depois, relendo "Dual".

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

XXII GOVERNO: QUANDO O PRESENTE FAZ LUZ SOBRE O PASSADO


É um início sombrio, envolto em golpes de teatro e várias suspeitas, certamente frustrando as expectativas de uma parte dos eleitores que votaram no PS e da generalidade dos portugueses.

E é muito mais do que um Executivo numeroso, repleto de tachos para os amigos, militantes e simpatizantes de quem tem o poder.

Em suma: é um passo no sentido do regresso ao passado, ainda que sem maioria absoluta, em que os princípios de convivência democrática são vergados pela prepotência e impunidade políticas.

O mais grave é que o XXII governo constitucional mereceu um cheque em branco presidencial no momento de tomada de posse.

E os riscos, mais do que glosados na comunicação social e no que resta de opinião publicada independente, voltam a valer apenas o que valem, ou seja, nada nos tempos que correm.

As nomeações de João Galamba, Antero Luís e Nuno Artur Silva são exemplos paradigmáticos do actual processo de abastardamento democrático.

O secretário de Estado Adjunto do Ambiente é protagonista de um dos negócios de Estado com cambiantes caricatos de que não há memória.

Nem mesmo o eventual inquérito aberto pelo Ministério Público ao negócio do lítio foi suficiente.

Não!

Quem manda é Costa, com Marcelo a sorrir para as câmaras de televisão...

Por sua vez, a participação no Executivo de um magistrado que liderou o SIS e o organismo mais importante da Segurança Interna também não deixa quaisquer dúvidas.

Hoje, tal como ontem, de triste memória, é a confusão entre Política e Segurança, como se fosse necessário recriar uma espécie de cordão sanitário à volta do poder político.

Mas ainda faltava a pérola...

A nomeação de Nuno Artur Silva para a secretaria de Estado do Cinema, Audiovisual e Media traduz a teimosia e a arrogância políticas de António Costa, com Marcelo a continuar a sorrir para as câmaras de televisão.

E nunca é de mais recordar: as críticas decorrem da violação da mais elementar transparência política, e não de qualquer a priori de carácter de quem quer que seja.

De truque em truque, de formalismo em formalismo, os tiques autoritários bem podem servir para a alimentar os senhores do poder, mas tal mina a confiança dos cidadãos.

Who cares?, dizem alguns, contrapondo que o fundamental são os dados macro e estatísticos, as contas mais ou menos certas e a vertigem da modernidade com o lixo debaixo do tapete.

Para quem ainda tinha dúvidas, tudo ficou mais claro...

É o país das elites que temos e merecemos, é a consagração de um bailete ainda mais refinadamente cínico, com Marcelo sempre à espreita de uma qualquer câmara de televisão para continuar a sorrir.

A marca é inconfundível, chancelando a afronta ao bom senso e à ética republicana, a qual, aliás, já nos conduziram ao pântano e ao período mais negro da história da Democracia em que, aliás, António Costa assumiu o lugar de um dos protagonistas.

No arranque da 14ª Legislatura fica cristalino, mais uma vez, todo o descaramento político.

Em que volta a importar tão-só a ilusão de normalidade, em que não cabem os desafios adiados, o desrespeito pelos cidadãos e os esqueletos da República, sejam os cadáveres da Saúde ou as negociatas de Estado, sem esquecer Tancos, entre outros...

Desta vez, António Costa não poderá voltar a dizer candidamente que não sabia de nada, por mais que Marcelo continue a sorrir para as câmaras de televisão.

Vamos assistir aos mesmos erros, abusos e desmandos, outra vez?

domingo, 20 de outubro de 2019

PANTOMINA POLÍTICA SEM LIMITES


A degradação do regime democrático está a atingir níveis impensáveis.

Entre muitos outros, e só para falar nos mais recentes, alguns exemplos sucedem-se: no Estado – com o negócio do lítio –, no governo – com novas nomeações ministeriais escandalosas –, nas Forças Armadas – com a tentativa de enterrar Tancos –, na comunicação social – com o escândalo do Sexta às 9 na RTP –, na Saúde – com o encerramento de Urgências – e na Justiça – com os processos Operação Marquês e Rui Pinto.

E, já agora, depois de todo o branqueamento descarado relativamente ao escândalo do familygate, é o próprio primeiro-ministro, António Costa, a dar sinais, aparentemente, da imperiosa necessidade de travar a promiscuidade ao mais alto nível da governação.

Não há palavras para toda esta pantomina política...

E tal só tem sido possível por força de um governo liderado pelo PS, agora reconduzido em eleições, de uma maioria de esquerda parlamentar que o sustenta por razões de táctica partidária, de uma máquina de propaganda travestida de opinião independente e de um presidente da República que exerce o seu mandato com uma ligeireza que poderá eventualmente estar a roçar a afronta constitucional.

Obviamente, os portugueses querem, antes de tudo, ver a sua vida melhorada e os seus direitos repostos, mas o que está a acontecer é demasiado grave para poder ser ignorado.

A falta de reacção dos cidadãos ao atropelo dos mais elementares deveres de responsabilidade política e de ética republicana constituem o mais perigoso sinal de tolerância, uma espécie de incentivo que já está a resultar num abastardamento democrático com consequências imprevisíveis.

O que se segue?

Uma nova versão da asfixia democrática?

Aliás, paradoxalmente, e de uma forma bem paradigmática, é a própria RTP a dar o "exemplo", conferindo visibilidade ao crescimento do arbítrio e da opacidade que tomaram conta do país.

E, então, o que dizer da indigitação do novo governo sem estarem apurados os resultados eleitorais?

Por um segundo devemos colocar a questão a nós próprios: alguém imagina o que aconteceria se algum destes casos tivesse ocorrido nos anos 80, 90 ou na primeira década do século?

Mais uma vez, com a esquerda no poder, os direitos individuais, a transparência na governação, a liberdade de informação e o combate à corrupção são esmagados pela prepotência de quem tem o poder.

domingo, 13 de outubro de 2019

PORTUGAL: NA ROTA DE UMA NOVA ERA


Portugal é um país abençoado e feliz.

De facto, os votos expressos nunca enganam.

E às vezes são exactamente como o algodão: limpam, limpam, limpam...

Ou seja, os portugueses foram indiferentes a Tancos e aos órgãos de soberania colocados "a salvo" in extremis, à decapitação da cúpula do MP que mais combateu a corrupção, à corrupção instalada ao mais alto nível, à degradação galopante da credibilidade do Estado, ao preocupante abrandamento da economia e à astronómica dívida.

Ah, mas isso não interessa nada!

E nem o dia-a-dia dos últimos quatro anos mudou a sua indiferença: os cadáveres do SNS, os pensionistas que esperam e desesperam pela sua reforma, as demissões governamentais, o recuo na aplicação da Lei das Incompatibilidades (chancelado pela PGR), o nepotismo e a partidarização de instituições como a Protecção Civil, entre outras, sem esquecer os desastres florestais e a tragédia humana, a degradação inimaginável dos serviços públicos e a carga fiscal que não pára de aumentar.

Ah, mas isso também não interessa nada!

O que importa é que os portugueses gostaram e votaram pela "geringonça".

E conseguiram!

Resultado: depois de conhecidos os resultados eleitorais, a morte da "geringonça" foi decretada em 24 horas, com mais ou menos truque agora em versão classificada como coreografia.

Uau!

Aqui e ali ainda se vislumbraram algumas lágrimas de crocodilo, mas isso também não interessa nada.

E se o respeito pelo voto popular expresso é este, então o que dizer do silêncio pesado sobre os restantes 47,83% dos votos (abstencionistas, brancos e nulos)...

Ups!

Mais isso também não interessa nada...

Vamos ao que interessa: temos pela frente novos tempos.

Soberanamente, os portugueses abriram de par em par a porta a uma nova realidade, quiçá a um regabofe nunca visto.

António Costa pode não ter a maioria absoluta, mas tem os deputados suficientes para poder fazer o que quiser.

E até programar, mais uma vez, com mais truque menos truque, para serventuário elogiar, uma crise política artificial para almejar a tão sonhada maioria absoluta em eleições antecipadas.

É um Senhor, mais um entre tantos que por aí andam.

Entretanto, a selecção de futebol de Portugal continua a ganhar...

A RTP retoma o programa de investigação jornalística que suspendeu durante a campanha eleitoral...

O presidente da República arranca com um novo argumento - entre a ficção e a novela, desde a saúde pessoal à tentativa de reescrever a história recente -, que promete uma nova dimensão do bailete...

Sim, sim: Netflix, já!

Temos e teremos o que merecemos.

Somos os maiores.

Portugal entrou na rota de uma nova era.

Interesse ou não, seja bom ou mau para Portugal, fica a reflexão para mais tarde recordar.