domingo, 29 de setembro de 2019

TANCOS: MARCELO E COSTA QUISERAM SABER TUDO?


É em campanha eleitoral que tudo deve ser discutido, permitindo aos eleitores conhecer quem são os representantes que estão à beira de eleger.

E todas as questões são pertinentes e úteis para saber o que se passou em Tancos, pois estamos em presença do maior escândalo político desde o 25 de Abril de 1974.

Mas, sinceramente, centrar a investigação, e o debate político mais do que necessário e legítimo, apenas na obtenção da resposta à questão que está na ribalta - o presidente da República e o primeiro-ministro sabiam da encenação de Tancos? - é um passo gigante para tudo poder ficar na mesma.

Além do mais, quem conhece o funcionamento dos mecanismos do poder sabe, perfeitamente, da impossibilidade de Marcelo e Costa nada terem suspeitado ou sabido sobre o que se passou em Tancos depois da notícia do roubo do armamento.

E também sabe, inequivocamente, que, a partir do momento em que o assunto passou a "queimar", o sistema age no sentido de tentar deixar o presidente e o chefe do governo "a salvo". 

Por isso, necessariamente, o caminho tem de ser feito complementarmente através do escrutínio do cumprimento das funções de Estado de ambos, ou seja: Marcelo e Costa quiseram mesmo acompanhar como deviam o que se passou em Tancos?

E mesmo que, em teoria, fosse possível que todo o Universo tenha mentido ao presidente e ao primeiro-ministro, tal não impede que seja apurado se ambos quiseram, de facto, saber tudo sobre Tancos.

Aliás, não é crível para ninguém de bom senso que tanto o presidente como o primeiro-ministro tenham baixado a guarda depois do roubo de Tancos, tratando-se de um assunto de Estado com tal gravidade e repercussão internacional.

Numa Democracia de mais de 45 anos, não pode bastar o silêncio do faz-de-conta, nem a farsa de gritar aos sete ventos o apuramento de responsabilidades...

E, chegados a esta encruzilhada, a uma semana das eleições, é preciso fazer o primeiro balanço.

Rui Rio e Assunção Cristas têm cumprido o papel de oposição, escrutinando a acção do governo.

Por sua vez, PCP, Bloco, Verdes e PAN envergonham a Democracia ao abrir a porta a mais um tabu em campanha eleitoral, fazendo de conta que a partir do momento em que a Justiça entra em acção a política deve ficar calada.

Quanto ao silêncio do PS, os portugueses já conhecem o que a casa gasta desde o tempo de Sócrates.

Dito isto, e depois de conhecida a Acusação, também é importante sublinhar que o exercício do escrutínio do poder não se confunde com qualquer avaliação moral ou de de carácter dos titulares de cargos políticos e públicos, sendo por isso necessário vigilância sobre o que o Ministério Público vai fazer a seguir.

Hoje, com o que já se sabe, Marcelo e Costa não podem ficar à porta da Justiça, mais chefe de gabinete menos chefe de gabinete.

O princípio da verdade doa a quem doer não pode ser atraiçoado, mais uma vez, pela importância social e política de quem quer que seja, nem tão-pouco pela proclamação de boas intenções.

As manobras mais ou menos criativas e inconsequentes, seja do presidente da República - esteve para pedir a autorização do Conselho de Estado para depor no processo de Tancos, mas não pediu -, seja do primeiro-ministro - invocar o estatuto político e os 58 anos de idade -, não podem enfraquecer a determinação de quem tem o dever de perseguir quem prevaricou, por acção ou omissão.

É preciso levar o apuramento sobre a encenação de Tancos até ás últimas consequências, não esquecendo qualquer possibilidade, designadamente aquela que está na mente de todos os portugueses de boa-fé: se o presidente da República soubesse da criminosa encenação em Tancos necessariamente o primeiro-ministro também teria de saber, e vice-versa.

Ficar à porta da verdade em Tancos é pouco, muito pouco, para fortalecer o regime democrático e merecer a confiança dos portugueses.


segunda-feira, 23 de setembro de 2019

CORRUPÇÃO COM NOVA CARTILHA


Os cargos de Francisca van Dunem, Pedro Nuno Santos e Graça Fonseca estão garantidos.

Contudo, não é através de decreto que os cidadãos passam a respeitar, respectivamente, os ministros da Justiça, das Infraestruturas e da Habitação e da Cultura.

Para "salvar" os três governantes, António Costa jogou tudo no alívio da pressão sobre a rolha da garrafa da corrupção ao mais alto nível do Governo e da Administração.

E Lucília Gago, procuradora-geral da República, chancelou a maior brecha no combate aos crimes de colarinho branco, desde o 25 de Abril de 1974, na proporcional medida em que as suas toilettes esvoaçam colorida e suavemente sobre as críticas do Conselho da Europa e de outras instituições internacionais.

Resta ainda saber se Lucília Gago vai determinar o carácter vinculativo do parecer do Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República (PGR).

Ainda assim, como já parecem remotos os tempos em que Joana Marques Vidal sustentava a tese das «redes de corrupção instaladas no Estado» - aliás, corroborando Maria José Morgado -, a qual teve o mérito de perturbar a tranquilidade do bailete instalado e em curso.

Vamos aos factos, por exemplo em relação ao sector da Saúde, em que a grassa a suspeita da grande corrupção, para observar, salvo melhor opinião, a monstruosidade política da tese defendida por António Costa, e agora secundada pela PGR:

76% dos portugueses consideram que a qualidade dos serviços públicos de Saúde ficou na mesma ou piorou no último ano;

 65% dos portugueses consideram que a corrupção ficou na mesma ou aumentou no último ano.

A relevância destes dois números, recentemente publicados pelo "Expresso", obriga a fazer mais e muito melhor, mas o Governo e o MP optaram por recuar em relação à Lei, com efeitos ainda pouco perceptíveis quanto ao futuro.

Só um serventuário do poder pode confundir o escrutínio implacável e o reforço da transparência com uma qualquer suspeição que tem subjacente uma avaliação de carácter dos titulares de cargos políticos e públicos.

De facto, com o parecer do Conselho Consultivo da PGR quase metade do PIB nacional controlado pelo Estado passou a estar mais exposto ao compadrio e às redes de influências.

Já sabíamos que esta espécie de PS que ocupa o poder padece de uma alergia crónica em relação à ética republicana, um princípio, aliás, cada vez mais abastardado, como comprova a extraordinária fantasia, tão impune quanto mirabolante, de ninguém ter dado conta no Largo do Rato do elefante no meio da loja.

Agora, desgraçadamente, ficámos a saber que a nova cúpula do Ministério Público atirou a toalha ao chão, quiçá plasticizando o atrevimento passado de incomodar um par de poderosos, e reforçou a percepção generalizada de um perdoa-me rastejante.

domingo, 15 de setembro de 2019

ELISA FERREIRA: CROWD CHEERS


A presidente eleita da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, uma espécie de Jean-Claude Juncker de saias, deve estar orgulhosa.

Elisa Ferreira é a nova comissária europeia, responsável pela distribuição dos fundos estruturais da União Europeia, enquanto comissária europeia para a Coesão e Reformas. 

Não faltaram elogios a Elisa Ferreira, da direita à esquerda, de quem nunca a respeitou a quem sempre a criticou, ou seja, tudo no mais perfeito cenário da forma como António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa estão na política e no poder.

Dito isto, importa centrar a questão: a pasta dos fundos europeus é assim tão importante para Portugal?

Ou ainda melhor: uma pasta na Comissão Europeia que permitisse um reforçado combate à corrupção e ao branqueamento de capitais não teria sido muito melhor para Portugal?

A comparação entre os fundos estruturais a receber e os custos da corrupção não resistem aos números: os custos para Portugal da corrupção cifram-se em 18,2 mil milhões de euros por ano, mais do que o orçamento anual para a Saúde, isto é, cerca de três vezes o que Portugal pode receber, anualmente, em apoios da União Europeia.

Se isto não bastasse é claro que alguém poderia contrapor o esforço nacional no combate aos crimes de colarinho branco, mas isso também não é verdade: além da escassez de meios e dotações financeiras, a PJ e o MP estão com o respectivo quadro com 50% de vagas.

E se isto também não bastasse resta dizer que Ana Gomes, ex-eurodeputada, com tanta ou mais credibilidade que Elisa Ferreira, que também é do PS, poderia ser um activo consensual para fazer a diferença numa verdadeira luta contra o dinheiro sujo e todos os fenómenos associados.

Só que Ana Gomes não cai no sistema como a seda...

Nem nos amigos do PS, nem nos escritórios de advogados, nem nos offshores, nem no futebol dos grandes, nem nos capitais angolanos e chineses, entre outros, nem em António Costa, nem em Marcelo Rebelo de Sousa, nem nos apparatchics que chafurdam no lamaçal em que Portugal está transformado há muito tempo.

Ora, neste autêntico bailete, cada vez menos republicano e mais rasca, não poderia faltar a cereja em cima do bolo: a inconsequente preocupação com a corrupção em Portugal...

Ainda há mais antes de 6 de Outubro de 2019?

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

CAMPANHA ELEITORAL: NINGUÉM LEVA A MAL?


António Costa não se livra da fama e do proveito: é o homem dos truques.

Mas é o único político a mentir politicamente de uma forma descarada?

Não!

Todavia, como é o primeiro-ministro, todo o escrutínio é pouco em vésperas de eleições.

E são tantas e tantas as vezes em que já foi apanhado que até há quem o elogie pela «habilidade política», seja lá isso o que for...

Entre muitas dessas "habilidades" que passam sem serem identificadas e corrigidas, há uma que recentemente chocou o país.

António Costa, na pele de secretário-geral do PS, afirmou: «Os portugueses estão a pagar menos mil milhões de euros de impostos do que pagavam em 2015».

A grosseria da afirmação impressiona, tanto mais que as receitas fiscais do Estado aumentaram entre 2015 e 2018, passando de um valor total arrecadado de 38.849 milhões de euros para 44.320 milhões de euros. Ou seja, o registo aponta para um acréscimo de mais de cinco mil milhões de euros.

Mas o que impressiona ainda mais, depois de Costa ter sido apanhado em mais uma flagrante mentirola política, é que o ministro Mário Centeno veio a público admitir que o «Estado ainda tem por devolver aos contribuintes mil milhões de euros em IRS».

Mais uma vez, nos últimos tempos, António Costa e Mário Centeno colidem politicamente...

Ou seja, a mentirola de António Costa ficou claramente exposta publicamente.

Ora, perante a evidência factual resta perguntar:

O que leva um político experiente a arriscar a sua credibilidade de uma forma tão leviana?

Certamente, a convicção que o escrutínio dos cidadãos e da generalidade da imprensa não funciona.

Será que António Costa tem razão em apostar na velha receita dos truques?

É esperar por 6 de Outubro para ter a resposta.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

COSTA E MARCELO: FRENÉTICOS E AGITADOS


António Costa anda frenético, exibindo autoridade, apunhalando amigos, prometendo o que não fez e multiplicando entrevistas e declarações que estão a incendiar a pré-campanha eleitoral.

A intranquilidade de António Costa surpreende, tendo em conta os estudos de opinião que têm sido publicados.

Então, o que se passa?

Medo dos debates com os restantes líderes partidários?

Ora, se a vantagem é assim tão grande o que faz o líder do PS ziguezaguear tão freneticamente?

Informação sobre o que está para vir por aí?

Por sua vez, Marcelo Rebelo de Sousa não cessa de surpreender, expondo-se cada vez mais à critica, apesar das sondagens lhe permitirem um grau de popularidade só equivalente à redundância em que o seu mandato se transformou.

E, agora, insiste num plano de salvação para a Comunicação Social, obviamente à custa dos contribuintes, porventura para poder (será possível?) contar ainda com melhor imprensa.

Isto é: se os portugueses não compram tantos jornais, não ouvem tanta rádio e não enxergam tanta televisão isso não interessa nada, pois pagam na mesma pela via do Orçamento do Estado.

Para ganhar uns votos e para condicionar os jornalistas será que ainda há limites para esta dupla (geringonça institucional) no uso e abuso do poder de representar o Estado?

Independentemente dos dislates e demais tiros no pé dos últimos dias, sejam quais forem as verdadeiras razões, ainda é cedo para descodificar o que está na origem de tanto frenesi.

De facto, António Costa nunca teve os votos nas urnas para liderar o governo de Portugal.

Talvez seja este, verdadeiramente, o seu calcanhar de Aquiles.

Por sua vez, Marcelo não se contenta com apenas um mandato, tudo estando a fazer para garantir o segundo ainda antes de terminar o primeiro, custe o que custar.

E, porventura, para evitar que o bailete em curso atinja proporções ainda mais obscenas, talvez fosse interessante, num dos poucos intervalos das selfies e feiras selectivas pagas com o dinheiro dos portugueses, aproveitar para perguntar ao presidente da República: dará posse a um primeiro-ministro que não tenha sido o líder do partido político mais votado nas legislativas do próximo dia 6 de Outubro?

E, já agora, com ou sem papel para fazer de conta?

À cautela, e pela mais elementar transparência, é preciso responsabilizar o primeiro-ministro e trazer o presidente da República para a realidade constitucional, porque nesta campanha pré-eleitoral já está a valer tudo...


segunda-feira, 26 de agosto de 2019

PORTUGAL FICA MAIS POBRE QUANDO DESAPARECE


Em tempos de exibição musculada e gratuita da força do Estado, momentos há em que Portugal desaparece.

Estranho?

Não!

Os exemplos deste "apagão" são variados e revelam um padrão aterrador da forma como o Estado olha e trata os cidadãos.

Um dos que mais impressiona, entre tantos e tantos outros, é o recente caso das gémeas de 10 anos que viviam presas em garagem sem ir à escola.
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Portugal desapareceu após o Correio da Manhã revelar o impensável na segunda década do século XXI.

Onde estava o presidente da República? 

E o primeiro-ministro? 

E os ministros da Segurança Social, Justiça e Educação?

E, já agora, a procuradora-geral da República?

O silêncio escondeu-se atrás do fazer de conta, em comunicados vagos e parcas declarações avulsas.

Como é abissal a distância entre os bastidores do poder e os corredores da vida...

E, pasme-se, desde os órgãos de soberania às instituições, da direita à esquerda, todos continuam a sorrir ao sol sem o mais pequeno vislumbre de constrangimento...

Uma realidade só possível porque, como dizia Miguel Torga, «Em Portugal, as pessoas são imbecis ou por vocação, ou por coacção, ou por devoção».

Pena é, muita pena, que a Comunicação Social não leve até ao fim - nem que seja por uma vez! - o escrutínio indispensável para limpar este lixo que permite do alto da poltrona, por acção ou omissão, que uma realidade tão abjecta permaneça impune ao longo de mais de uma década.

Fait-divers?

Não!

É um exemplo, mais uma singela tragédia, com tanta ou maior importância que o caso de Tancos.

Num como no outro, Portugal fica mais pobre quando desaparece.



domingo, 18 de agosto de 2019

COSTA IGUAL E SEM SURPRESA


A lógica instrumental de António Costa já vem de longe...

Nos momentos decisivos, na JS, no PS, como número dois de Sócrates, presidente da Câmara de Lisboa e, agora, como primeiro-ministro, preferiu sempre o "eu" ao "nós".

Ai, os acordos... Quantas alianças...

O primeiro-ministro continua a fazer jus às práticas do seu ADN partidário e arranca para as legislativas de 6 de Outubro com a mesma arrogância política sustentada na propaganda, a mesma lógica instrumental reveladora da incapacidade em aprender com os erros do passado e a mesma falta de sentido de interesse nacional compensado pela visão cor-de-rosa politicamente irresponsável.

A lógica de curto prazo, a estratégia de manutenção do poder pelo poder, com mais ou menos truque de bastidor, e a indiferença aos grandes estrangulamentos e desafios que Portugal estão amplamente demonstrados, entre outros exemplos, com o reforço da vergonha dos Vistos Gold de Portas.

Aliás, que o digam os camionistas, os notários, os doentes do SNS, os reformados da Segurança Social, as vítimas dos incêndios, os professores, os enfermeiros, os médicos, os militares, os polícias, os investigadores criminais, etc...

Com a máquina da propaganda bem oleada, constituída por uma federação de interesses divergentes e até opostos mantida paulatinamente e generosamente alimentada, António Costa tem conseguido atingir os "seus" objectivos pessoais e políticos.

Foi assim para chegar ao poder, tem sido assim com a austeridade selectiva em curso, é assim com a greve dos camionistas que transportam matérias perigosas, será assim com a sua obsessão por um lugar institucional internacional.

O circo montado em relação à greve dos camionistas, sem olhar às reivindicações justas, sem controlo independente, e sem respeito pela legalidade, revela o regresso ao passado: um governo forte com os fracos e fraco com os fortes.

Resultado: os mais pobres e desfavorecidos pagam a factura, enquanto o Estado dominado pelas esquerdas continua a sustentar as elites gordurosas que cercam o governo e a classe política.

Se elegerem António Costa, pela primeira vez, para continuar liderar o governo de Portugal com as mãos livres, então os portugueses não aprenderam nada com o passado nem com o presente, ou seja, ainda teremos muito caminho para percorrer até conseguir viver em Democracia.

domingo, 11 de agosto de 2019

GREVE DOS COMBUSTÍVEIS: E O MOVIMENTO SINDICAL?


A confirmação da greve por tempo indeterminado do transporte de combustíveis é o primeiro passo para infernizar as férias dos portugueses.

Depois de sucessivos passos que agravaram o conflito, o XXI governo constitucional está sob pressão, refém de uma estratégia socialmente hostil e politicamente eleitoralista.

E nem mesmo o presidente da República pode ser a última reserva - depois da precipitação de atestar o depósito do carro.

Depois da decisão judicial que deu cobertura aos serviços máximos, alimentando as ameaças de António Costa, a verdade é que o direito à greve ficou ferido de morte.

Amanhã, uma qualquer outra greve está à mercê de governantes e da interpretação e aplicação restritiva da lei da greve.

Em suma, há políticos que olham mais para a sua imagem do que para a atitude de Estado essencial para mediar um conflito laboral.

Com a iminente requisição civil, porventura baseada em truques semelhantes aos que ocorreram na última greve dos Enfermeiros, resta saber como vai reagir o mundo sindical à bomba atómica do mundo laboral, bem como as respectivas ondas de choque a nível internacional.

Os sinais de desconforto na PSP e GNR são um alerta muito preocupante que o primeiro-ministro e o presidente da República desvalorizaram de uma forma politicamente leviana.

Aliás, ainda está por avaliar quais as consequências de um alastramento da onda de indignação entre os camionistas a outros sectores e profissões,

Também os partidos à esquerda não vão poder continuar a tentar escapar entre os pingos da chuva deste Verão especial.

E o que resta da oposição à direita não deixará de estar atenta ao sarilho em que o país está metido por força da conjugação de três factores:

1. A habitual arrogância política de António António Costa;

2. A falta de preparação de Pedro Nuno Santos para assumir uma pasta tão relevante;

3. E a já tradicional inconsequência política e institucional de Marcelo Rebelo de Sousa.

Se o que resta do movimento sindical acordar, então António Costa ficará com muito mais do que um grave problema com os camionistas.

E Marcelo Rebelo de Sousa ficará enterrado na sua torre de marfim, porventura fazendo selfies cada vez mais sozinho e a propalar as mesmas generalidades perigosas ao sabor do vento.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

GOVERNAÇÃO E BOLORENTOS


Ninguém ousaria prever que, depois de 2015, o PS voltaria a liderar um governo contestado pelo nepotismo e suspeitas de corrupção nos negócios com o Estado.

Todavia, a actualidade não deixa de nos surpreender, favorecendo a instalação de um clima pantanoso face às sucessivas notícias de familiares dos socialistas colocados no aparelho de Estado e de negócios opacos e ruinosos levados a cabo por empresas detidas por familiares de membros do XXI governo constitucional.

O ex-número dois de Sócrates, hoje primeiro-ministro de Portugal, não aprendeu nada, nem quer aprender, porque continua confortável com o estado a que isto chegou.

O debate deve levar mais longe a terapia exigível para acabar com este bailete, aliás, liderado magistralmente por Marcelo Rebelo de Sousa.

Portugal continua a ser conduzido por políticos bolorentos, muito bolorentos, incapazes de perceber que os fenómenos de nepotismo e de corrupção são civilizacionalmente inaceitáveis.

É claro que esta espécie de políticos bolorentos são legalistas, formalistas, habilidosos e lavam as mãos frequentemente ou desaparecem num ápice quando lhes convêm.

Obviamente, seguem a lei - quando não a mudam a todo o vapor -, pedem pareceres à PGR - depois de tentar controlar o Conselho Superior do Ministério Público -, mas aguardam sempre, serena e humildemente, pelo veredicto da Justiça e pelo voto nas urnas - que interpretam da forma mais conveniente.

Não, não chega para mudar Portugal.

O saque permitido por este políticos bolorentos - por acção ou omissão - custa muito dinheiro que faz falta no sector da Educação, da Saúde e da Justiça, entre outros decisivos para melhorar a vida dos portugueses.

Não, não é possível respeitar politicamente este políticos bolorentos, independentemente das convicções de cada um deles ou da aptidão para a selfie ou para o discurso politicamente hipócrita.

Não, não é admissível continuar a assistir a esta governação bolorenta.

Talvez seja desta, talvez, nas próximas eleições legislativas de 6 de Outubro, que a lucidez dos portugueses permita enviar esta espécie de políticos bolorentos para a reforma... 

Ainda que sabendo que terão de lhes pagar reformas douradas!

segunda-feira, 29 de julho de 2019

GOLAS MAÇADORAS E VACAS SAGRADAS


Numa realidade democrática consolidada e adulta não há instituições nem profissões boas nem más, nem tão-pouco umas mais importantes do que as outras.

É tão importante um bombeiro como um médico, um camionista como um polícia, um canalizador como um enfermeiro, um jornalista como um magistrado e um governante como um lixeiro.

Todos eles são essenciais para realizar uma vida em sociedade.

E não é por serem alvos de críticas que a sua honorabilidade e o regime democrático são colocados em causa.

Em épocas de incêndios, por exemplo, há muitos e muitos anos que está demonstrada à saciedade a falta de qualidade dos bombeiros e a fraca eficácia do sistema de protecção civil recheado de apparatchiks.

E não é por isso que podemos afirmar que são dispensáveis.

Aliás, também está amplamente comprovado a falta de qualidade da classe política e dos governantes.

E não é por isso que vamos prescindir dos partidos políticos e de um modelo de governação democrático.

É verdade que há instituições e profissões mais ou menos maçadoras, uns por força da sua capacidade de intervenção, outros pela mobilização capaz de fazer greves.

Seja a comprar golas inflamáveis para protecção dos fogos, seja a parar o país.

Mas o problema é outro: aqueles que se julgam sagrados e imunes à crítica, ao escrutínio e à mudança.

Os bombeiros estão entre aqueles que, pela nobreza da sua acção, se julgam intocáveis.

E os governantes perpetuam uma realidade que nos obriga a continuar a ver o país a arder desalmadamente.

O mesmo se poderia aplicar a todas as outras situações que envolvem esta espécie de castas que fazem tão bem como mal, e que é urgente modernizar e colocar numa trajectória útil.

Ou seja, em Democracia, se as golas maçadoras são intoleráveis, as vacas sagradas alimentadas por fantasias reles e oportunistas são imperdoáveis.

domingo, 21 de julho de 2019

PAÍS DE CONTAS (IN) CERTAS


Há quem seja capaz de dizer a maior mentira sem se rir.

E até há quem também seja capaz de acreditar mesmo que a sofrer e a chorar.

Num país em que o Estado esconde, deve e fica a dever com a maior impunidade, os noticiários repetem elogios ditirâmbicos às contas públicas, omitindo o que está por debaixo do tapete e as consequências dramáticas das escolhas da governação.

António Costa não se cansa de liderar e apanhar a boleia desta propaganda orquestrada, conseguindo até não se desmanchar a rir, designadamente quando promete como prioridade para amanhã o que já era prioridade ontem.

O ministro das Finanças tem o descaramento político de reafirmar as suas contas, sem que lhe coloquem à porta do Ministério que tutela o número de caixões equivalentes ao número de pessoas que morreram por causa de falta de atendimento e de adiamento de consultas e cirurgias.

É também neste mesmo país que a incompetência de um ministro é capaz de passar despercebida mesmo que condene os reformados a esperar e a desesperar pelo pagamento da reforma ao fim de décadas de trabalho e descontos para a Segurança Social.

É o país em que nunca falta a chancela e o afecto presidencial, qual perpetuar do bailete para animar a malta.

O tal país onde não faltam cidadãos resignados e/ou entretidos com o futebol que vai começar.

Onde também não faltam instituições de controlo e uma comunicação social que já perderam a vergonha.

Onde vingam os pedinchões que aguardam a respectiva compensação pelo abafamento de uma realidade escandalosa que jamais se pode transformar numa banal breve ou numa nota de rodapé.

Portugal é, de facto, um país de contas (in) certas.

sábado, 13 de julho de 2019

FÁTIMA BONIFÁCIO E OS CENSORES DO COSTUME


Miguel Poiares Maduro, uma das revelações do governo de Pedro Passos Coelho, representante de uma opinião credível, fundamentada e clara, escreveu um artigo intitulado "Os Editores do Espaço Público. A propósito do artigo de Fátima Bonifácio".

Não poderia estar em mais desacordo com a confusão entre a política editorial, a liberdade de expressão e os direitos de quem tem um vínculo com um qualquer órgão de comunicação social para dar regulamente a sua opinião pessoal.

Aliás, não é por estar frontalmente contra quem defende uma nova forma encapotada de censura que deixarei de ler Miguel Poiares Maduro ou até o "despedirei" dos espaços editoriais da minha responsabilidade.

Continuarei a lê-lo e a citá-lo sempre que reconhecer a honestidade intelectual dos seus artigos, independentemente da sua opinião.

Num país em que as indignações são selectivas e até mesquinhas, com mais ou menos recado tão intimidatório quanto parolo, só faltava agora que um qualquer opinion maker tivesse de pensar duas vezes antes de dar a sua opinião, antecipando uma qualquer política editorial ou o humor dos donos disto tudo.

Fomentar a censura ou a auto-censura é muito mais do que um exercício execrável, como sublinhava Gustave Flaubert: «A censura, seja ela qual for, parece-me uma monstruosidade, uma coisa pior do que o homicídio: o atentado contra o pensamento é um crime de lesa-alma».

quarta-feira, 3 de julho de 2019

UM NOVO TIANANMEN É POSSÍVEL?



A razão e a força dos protestos liderados pelos jovens de Hong Kong - sim, pelos jovens da revolução digital, os tais que na Europa não se interessam pela política -, obrigam a recordar o massacre de Tiananmen.

A ex-colónica britânica volta a colocar Pequim à beira de um ataque de nervos, deixando à deriva o governo liderado por Carrie Lam que avançou precipitadamente com a lei de extradição de suspeitos de crimes para a China continental.

Depois dos protestos de 2014 ("Revolução dos Guarda-chuvas" e "Primavera Asiática") e dos actuais confrontos é caso para perguntar: um novo Tiananmen é possível em Hong Kong?

A resposta é simples: não!

A violação da Declaração Conjunta Sino-Britânica sobre Hong Kong, assinada no dia 19 de Dezembro de 1984, deixaria Pequim novamente confrontada com o isolamento internacional.

De igual modo, a importância da praça financeira de Hong Kong, a terceira maior do mundo, constitui motivo suficiente para travar um novo qualquer ímpeto aventureiro e assassino dos chineses.

Por último, e porventura o factor mais decisivo, os ingleses criaram verdadeiros cidadãos de Hong Kong antes de entregar o território à soberania chinesa em 1987.

No dia 4 de junho de 1989, o mundo assistiu estupefacto ao esmagamento brutal da revolta estudantil na China.

Hoje, em Hong Kong, assistimos aos valores da Democracia a fazer face, novamente, a uma das mais cruéis ditaduras do mundo.






quarta-feira, 19 de junho de 2019

FUTEBOLIZAÇÃO DO PAÍS


Num país cada vez dual, em que a macroeconomia nos dá tantas alegrias e o dia-a-dia das pessoas rasga a nossa esperança, porventura é hora de começar a repensar o presente e o futuro.

Ultrapassada a novela da Lei de Bases de Saúde, mais uma para entreter a malta que transita para próxima legislatura, talvez seja a hora de verdadeiramente começar a tratar de todos aqueles que precisam de cuidados de Saúde e que esperam meses e meses para receber as reformas, entre os quais os mais idosos atirados para níveis de sobrevivência e miséria humilhantes.

Com cidadãos mais educados e uma imprensa livre seria de esperar outra atitude face ao poder, este ou qualquer outro, de mais mobilização, de mais escrutínio e de mais exigência, combatendo sem tréguas as muitas e muitas outras iniquidades que o país vai escandalosamente tolerando.

Porém, a realidade é outra.

Ainda temos dentro de nós o bichinho salazarento do sempre obrigados, remediados e venerandos.

E continuamos a ter Fado, Fátima e Futebol.

Aliás, a galopante futebolização do país impressiona...

Por todo o lado, do café ao restaurante, da escola à universidade, do Parlamento à visita oficial e de Estado, nascem metáforas futebolísticas, mais ou menos elaboradas, como se a vida começasse e acabasse num jogo de futebol.

Até temos o bombardeamento de notícias sobre os milhões e milhões das transferências arrecadadas com os craques da bola, num exercício medíocre de soma de parcelas, sem um segundo de arrojo e desassombro para questionar a origem de tanto dinheiro.

Talvez seja mais cómodo...

Muito mais cómodo do que pegar numa caneta, num microfone e numa câmara de filmar para percorrer as urgências hospitalares, os balcões da Segurança Social, entre outros.

Estimular a massa cinzenta no presente tempo, de forma a podermos raciocinar como foi possível ter chegado a este ponto, talvez seja demasiado arriscado.

Ah, o calor já está aí à porta...

Com mais ou menos expediente, legal, ilegal ou criminoso, indivíduos e famílias lá vão aguentando...

E - viva o palhaço bem-falante! - tudo fica adiado, novamente, até à chegada do tempo mais frio...

Talvez o futuro seja ainda mais futebol e, já agora, a grande conquista de um país sem beatas, enquanto quase tudo à volta está podre e começa a dar sinais de colapso iminente...





segunda-feira, 3 de junho de 2019

GOVERNANTES SEM LIMITES



É difícil conseguir acreditar em determinados relatos, mesmo lendo e relendo informação bem documentada.

Nada que possa surpreender, mas não há limites?

E até há notícias que dizem tudo: apelos lancinantes, alerta Maria Lúcia Amaral, provedora de Justiça.

Como é possível que um primeiro-ministro tenha a petulância política de fazer de conta que não sabe o que se está a passar com o atraso nas pensões?

Como é possível que Mário Centeno e Vieira da Silva, ministros das Finanças e da Segurança Social, tenham o descaro político de permanecer nos respectivos cargos, ignorando os sucessivos avisos da Provedora de Justiça?

Aliás, onde está a indignação dos líderes e dos partidos da oposição com assento parlamentar?

E o Bloco de Esquerda e o PCP continuam a suportar um governo que convive com esta atrocidade social?

E Marcelo Rebelo de Sousa?

O que tem a dizer sexa?

Nem mesmo mais uma qualquer vacuidade política, em calções ou pose de Estado, para distrair a malta no bailete em curso?

O descaramento político de governantes sem limites atinge sempre o auge depois de ter os votos no papo, desatando agora a pedir desculpas pelo sistemático desprezo ultrajante sobre os direitos dos cidadãos, designadamente dos mais pobres, entre os quais é possível destacar as péssimas condições dos serviços do Estado, desde os transportes públicos ao escândalo no Serviço Nacional de Saúde, sem esquecer a Justiça, a Segurança Social e a Educação. 

Há limites... E limites...

segunda-feira, 20 de maio de 2019

BRUNO LAGE E A MUDANÇA



«O futebol é apenas o futebol. Há coisas mais importantes na nossa sociedade e no nosso país pelas quais temos de lutar. Se vocês se unirem, se tiverem a força e a exigência que têm no futebol na nossa economia, na nossa saúde, na nossa educação, vamos ser um país melhor».

A declaração do treinador do Sport Lisboa e Benfica é uma enorme lufada de esperança no futebol português.

Quem sabe um prenúncio de mudança num mundo marcado pela corrupção, lavagem de dinheiro sujo e gentinha rasca.

A declaração de Bruno Lage, no momento da vitória, é muito mais do que a prova da elegância do vencedor, é uma declaração de fé na cidadania, uma aposta no desporto e o voto num Portugal melhor.

Que se cuide o novo treinador campeão, pois o algozes do futebol vivem e convivem bem com o lodaçal em que estão habituados a chafurdar em benefício próprio e de uma imensa prol de meliantes, uns engravatados, outros de calções e fato de treino.

É caso para dizer que Bruno Lage chegou, viu e venceu.

E na hora da vitória, em que também não esqueceu o seu mentor, Jaime Graça, conseguiu fazer mais  pelo futebol num minuto do que muitos que por aí andam.

Um novo treinador, um novo campeão e um novo discurso.

Parabéns ao campeão!






terça-feira, 14 de maio de 2019

BERARDO E OS MESMOS DO COSTUME




O pecado de Joe Berardo não é dever dinheiro. 

Nem tão pouco estar envolvido em jogadas políticas e operações financeiras escandalosas. 

A questão é que Berardo, o tal empresário do ano para Marcelo a caminho de Belém, foi ao Parlamento deixar um aviso, colocando a nu a incúria e a cumplicidade de governantes, políticos e bancos. 

Berardo já devia saber que não lhes importam o que realmente são, apenas os enfurece que os outros saibam quem eles são. 

Desplante por desplante, Berardo sabe bem como lidar com esta canalha sem vergonha que usa e abusa da ingenuidade de um povo demasiado ocupado a tentar sobreviver. 

E por isso permitiu-se mais um luxo: gozar com eles, insultando todos os portugueses. 

Berardo guarda segredos de regime. 

E não deve ficar muito impressionado com a farsa de todos aqueles que nada sabiam, mais uma vez, tal e qual como em relação ao BPN, ao BES e aos Sócrates deste mundo. 

Quem com ele andava de braço dado, sem esquecer o já falecido Horácio Roque, vem agora esbracejar indignação. 

São os mesmos, com capas diferentes, que deixaram o país de mão estendida e que resolveram o BANIF. 

Como falta memória em Portugal… 






domingo, 5 de maio de 2019

TRUQUES, TESTE E MÁQUINA AFINADA


Vale a pena pegar num par de exemplos para avaliar o estado em que está o país.

Em tempos idos, que mais parecem bem longínquos, o arraso permanente de Passos Coelho atingiu o zénite quando o ex-primeiro-ministro teve o atrevimento de anunciar, com toda a transparência, em plena fase da Troika, que os cortes seriam permanentes.

Hoje, os mesmos que o criticaram, muitas vezes ultrapassando o limite do insulto, esperneiam em elogios ditirâmbicos a António Costa por ter ameaçado com a demissão por causa de PSD, CDS, Bloco e PCP terem aprovado no Parlamento a consagração da restituição do tempo de serviço aos professores.

Noutra era, que também já parece bem distante, curiosamente na mesma altura em que a Troika havia instalado arraiais em Portugal por causa de uma governação descabelada, sem falar de outras coisas, os tais que lutavam pelo direitos à saúde, às pensões e às reformas nunca se cansaram de zurzir no pobre gestor de massa falida que assumiu o poder em 2011.

Hoje, passados quatro anos, os tais arautos da defesa dos mais desfavorecidos fazem de conta que os tais direitos adquiridos intocáveis foram plenamente restituídos, ignorando a evidência do que se está a passar escandalosamente à frente dos nossos olhos.

Não, não estou a falar do direito à opinião livre, mesmo que ela sirva para sustentar os truques da velha política, aos quais António Costa já nos habituou desde o início da sua carreira partidária e governativa.

Estou a falar do coro imenso e avassalador a que estamos a assistir, sem rigor, sem contraditório, quase em uníssono, antes de ponderadas e escutadas todas as partes, com um tal desplante e dedo acusatório que impressiona o mais distraído dos consumidores de informação.

Crise, já!

Teste!

A máquina está bem afinada.

A propaganda está a funcionar em pleno.

Não há razão, pois claro, para não antecipar eleições.

Bravo, António Costa!

segunda-feira, 29 de abril de 2019

EM BREVE


ESQUERDA E FIM MERECIDO


Listas de espera nos hospitais? 

Pensionistas e reformados que não recebem a horas? 

Nada disto parece incomodar a esquerda em Portugal, a avaliar pelo novel debate instalado sobre as PPP's da Saúde.

Aparentemente, o que mais preocupa esta esquerda que nunca esquece de  ostentar o cravo vermelho, mesmo quando ignora os seus valores, é abrir uma guerra aos privados, quando o problema não são os privados mas as negociações que o Estado e os privados concluíram para a construção de hospitais absolutamente necessários para suprir as carências existentes.

Já alguém perguntou a esta esquerda o que teria acontecido se os hospitais de Braga, Cascais e Vila Franca de Xira - considerados os melhores do país - não existissem?

Importa também recordar que as PPP's da Saúde são uma solução financeira para Estados falidos que não têm dinheiro para levar por diante os investimentos fundamentais para garantir as necessidades das populações.

E, como tudo na vida, tudo tem um custo, quando não se está à altura das exigências mais basilares.

E, já agora, será que a denúncia da Provedora da Justiça, relativamente aos escandalosos atrasos no pagamento de pensões, já foi varrida para debaixo do tapete?

Com uma oposição mais virada para o show inconsequente do que para o lançamento de um debate sério sobre os terríveis constrangimentos que estão à vista, não é de admirar que a ignomínia continue a vingar na maior impunidade.

Tanto mais que a generalidade da imprensa continua atolada na sua própria contradicção editorial de ter optado pelo infotainment para sobreviver, paradigma que, apesar de se ter revelado falso, continua a imperar.

A esquerda portuguesa está de cabeça perdida: uns por terem abraçado a extrema esquerda; os outros por estarem a apoiar a governação de uma certa esquerda cada vez mais insensível e aburguesada; e, sobretudo, por ambos ignorarem o fundamental que levaram a maioria dos portugueses a votar neles.

Uns e outros pagarão o preço deste absurdo ideológico, político e social mais tarde ou mais cedo, pois não há nada mais importante do que o dia-a-dia dos cidadãos, de quem tem direito a ter saúde, pensão e reforma, mas nem sequer tem garantido e a horas nenhum destes direitos.

Enquanto em Espanha a esquerda recupera, será que, em Portugal, esta esquerda da treta terá um triste e merecido fim, ou seja, ser corrida do poder por muitos e bons anos?

quarta-feira, 24 de abril de 2019

ANTÓNIO COSTA PODE PERDER?



Em vésperas de eleições as frases inflamadas dignas de comícios, as quais revelam sempre algum desespero político, são típicas de apparatchiks.

Se não vejam bem: «Peço a todos e a todas que nos mobilizemos mesmo a sério, porque estas eleições europeias são tão decisivas como foram as autárquicas de há dois anos, são tão decisivas como as legislativas de Outubro».

Face a estas intervenções comicieiras muitos têm sido aqueles que revelam uma certa estranheza pelo facto de António Costa estar a meter a carne toda no assador relativamente às próximas eleições europeias.

Quem diria, o primeiro-ministro, com mais fama do que proveito de calculista exímio, a colocar assim a cabeça no cepo das urnas...

A verdade é outra: António Costa sabe bem que não pode voltar a perder nas urnas.

E precisa de legitimidade eleitoral como pão para a boca.

Como sempre, e durante toda a sua carreira política, Costa vergou os interesses do país aos seus interesses, ainda que, obviamente, pessoal e politicamente legítimos.

Ora, um dia vai dar-se mal.

Certamente voltará a inventar um novo coelho a sair da cartola, com a complacência da generalidade dos Media e da opinião publicada, mas desta vez, a próxima vez, não será a mesma coisa.

António Costa bem o sabe.

E não quer, nem pode, perder a oportunidade, sobretudo tendo Rui Rio à mão de semear em qualquer estação.

Resta saber se os cidadãos também concordam que a carreira do senhor Costa é mais importante que o país.

A não ser, quem sabe, que o Diabo não exista mesmo...



quinta-feira, 18 de abril de 2019

GREVE, POLÍCIAS E SECRETAS


Depois do choradinho do país apanhado descalço por umas centenas de trabalhadores de transporte de matérias perigosas, sem a correspondente responsabilização dos ministros que tutelam o sector, eis-nos face ao início de mais uma grande surpresa: a glória do governo de António Costa no momento do anúncio do fim da greve.

Nem mesmo o país ter parado de um dia para o outro, com as estações de serviço sem combustíveis, as reservas nos aeroportos nos mínimos, parece ser motivo de forte censura e escrutínio redobrado do Executivo.

Claro que é bem mais fácil e simplista atirar as culpas para os patrões e trabalhadores e ignorar que para os governantes o que importa é Lisboa e Porto.

Agora, passada a turbulência, importa avaliar a tese benigna do governo desprevenido, porque, pasme-se, aparentemente, não foi só o governo e a comunicação social que foram surpreendidos.

Também as polícias e os serviços de informações são incluídos no pacote.

Há um delírio no ar que ultrapassa todos os limites.

Quando é aventado que as polícias e as secretas deviam ter vigiado trabalhadores no exercício de um direito constitucional, então é caso para afirmar que há muita gente de cabeça perdida no seio de uma esquerda cada vez mais sectária e falida.

Para a história ficará: por um lado, mais uma prova de mudança no mundo sindical, com trabalhadores que não se reveem nas velhas estruturas partilhadas pela esquerda e direita e que demonstram indiferença em relação aos tradicionais partidos, associações e demais movimentos; por outro, a insultuosa protecção ao actual governo de António Costa.

Pode ser que esta greve mude muito mais do que a relação de forças entre governo, trabalhadores e patrões, quem sabe até obrigar ao debate público de uma revisão da Constituição da República para acabar com a actual farsa, assumindo e consagrando que há determinadas profissões que não têm o pleno direito à greve.

domingo, 14 de abril de 2019

JORNALISTAS E WHISTLEBLOWERS


Um ser humano que resiste quase sete anos confinado a uma embaixada, cercado pela polícia e por agentes dos serviços de informações, não pode ser tratado como um vulgar ladrão.

A prisão de Julien Assange é mais uma oportunidade para colocar à discussão pública em que tipo de sociedade queremos viver: a do Estado omnipresente ou a de uma cidadania capaz de escrutinar o poder, seja ele qual for.

Obviamente, não há ninguém que seja apologista de uma espécie de ditadura com mais ou menos verniz democrático, pelo que a questão deve ser colocada na forma e nos meios usados para examinar o Estado e os seus braços ao nível da governação e da sociedade.

Os caminhos são diversos, desde a legitimação de um pântano para extirpar outro pântano até ao combate ao crime sem ter de ser criminoso.

O reforço dos meios da investigação dos órgãos criados em Democracia, com directrizes claras e definidas, não serão o melhor caminho?

Obviamente, sim.

Mas não chega, não tem chegado.

E isso, sim, é a questão fundamental, a porta aberta a todo o tipo de populismos, da esquerda à direita.

Este é o paradigma que os jornalistas enfrentam, diariamente.

O jornalismo moderno não pode sucumbir à tentação de  transformar-se numa espécie de conjunto de hackers disponíveis para invadir os sistemas públicos e privados, visando arranjar mais uma "cacha".

Além de perigoso, o caminho pautado pela máxima dos fins justificarem os meios apenas levaria a um atoleiro ainda maior do que aquele em que alguns vivem, hoje, confortável e tristemente.

O encanto do jornalismo é descobrir e publicar aquilo que alguns não querem nem gostam de ver tornado público, independentemente da origem da informação.

Para isso, para avaliar a forma como qualquer documento foi obtido, lá está a opinião pública e as autoridades instituídas para investigar, acusar e julgar.

Não, os jornalistas nunca poderão ser Assange, Snowden ou Manning,

Nem mesmo ponderar pisar o risco como os whistleblowers. Ainda que possam usar os resultados da sua actividade, apenas e excepcionalmente em prol do interesse público, um valor superior pelo qual qualquer jornalista, digno desse nome, em consciência, está sempre disposto a pagar o preço.

Que não fiquem quaisquer dúvidas: "Luxleaks", "Panama Papers", "Paradise Papers", "Dieselgate e "Cambridge Analytica", para só falar nos escândalos mais recentes, são demasiado importantes e graves para serem desvalorizados ou ignorados.

É no quadro desta realidade dantesca que a União Europeia prepara o reforço da protecção dos whistleblowers a nível da UE, elaborando uma proposta de directiva para a protecção de pessoas que denunciem infracções ao direito da União. 

E é no seguimento desta opção que a comunicação social deve estar atenta e apostar no reforço do jornalismo de investigação, reconhecendo as suas vulnerabilidades e limites.